como eu vim parar aqui?

.nono dia | janeiro 20, 2010

Segundo dia em Berlin. E eu ainda não sei dizer se gosto dessa cidade ou não.

Talvez eu tenha dificuldade em aceita-la porque ela se parece, demais, com São Paulo. E, para mim, São Paulo é São Paulo. Eu sei que os punks de São Paulo não dão a mínima quando eu passo; eu sei também que os skinheads de São Paulo não me olham. Aqui eu não sei. Hoje na rua, por causa da minha maquina fotografica (com certeza), veio um cara me perguntar se eu falava ingles e veio me mostrando um papelzinho em letras mínimas. No mínimo pra eu parar pra ler e o outro que estava com ele me roubar. Continuei andando e disse, em alemão, que não tinha nada. O cara sumiu. Meu número de fotos hoje diminui consideravelmente, em comparação ao outros dias. Porque agora, por medo, ela não sai da minha mochila.

Não sei se vocês conseguem seguir meu raciocínio. Digamos que, os meliantes da minha “nação”, esses eu sei como irão reagir as minhas respostas. Os daqui, eu não tenho a mínima idéia. Berlin é linda, é cosmopolita, ouve-se um milhão de idiomas nas ruas. Mas Berlin é grande demais, justamente pra suportar toda essa gente. Berlin me dá medo. Os edifícios são grandes demais, as estações principais de metrô são maiores que a Sé, em andares e conexões, e isso ainda me assusta. Principalmente porque, hoje, eu tive que voltar sozinha pra casa. O metrô é um nojo, eu juro… Mas, ainda sim, é uma cidade que culturalmente falando não tem páreo. Nem Paris (vimos isso documentado, em um dos nossos seminários).

Talvez a grandiosidade de Berlin seja um teste. Um teste, pra mim. Um teste pra eu crescer. Em Munique tudo parecia menor, acolhedor, minha familia era realmente uma familia. Hoje eu me vejo numa cidade hostil, onde a minha “familia” mal me dá boa noite e onde eu tenho, no café da manhã, direito a comer um pão só. Uma fatia de queijo, uma fatia de embutido. Uma fruta. Um, um, um… esse número que vem se tornando tão presente na minha vida. De repente eu, um, me vejo em uma cidade estranha, uma, num caminho esquisito pra casa, um. Talvez, se eu tivesse mais um aqui, seriamos dois, ou três, ou cinco… E tudo seria menos esmagador. Mas, quando eu me vejo no meio da Potsdamer Platz, perdida, sem saber onde as coisas ficam, os prédios parecem dobrar de tamanho… e tudo parece mais agressivo.

Por coincidencia, hoje, no meio do nosso trabalho de pesquisa em campo, estivemos na mais famosa igreja de Berlin, a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche.

Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche

E cheguei bem na hora da pequena missa diária, aberta. O padre dizia como era bom ver algumas pessoas ali (cinco, no total), que ainda perdiam algum tempo do seu dia para ouvir a palavra de Deus. Foi ai que eu conversei com o meu Eu, o meu Deus, e disse pra eu mesma que a vida não era uma casa de bonecas, como em Munique. A vida não era uma familia amavel e doce. A vida era mesmo ter apenas um pão e uma pessoa que não te dá boa noite. E foi ai que eu me lembrei de algumas pessoas que estão no Brasil e que fazem, ainda, minha vida parecer como “Munique”. E eu pensei com muito carinho nelas. Porque elas fazem a minha vida menos dura.

Pra terminar o dia, um filme no cinema. Odiei. A neve me congelando os ossos, uma pizza nem tão boa assim e uma volta pra casa, sozinha, me perdendo nas inúmeras linhas de metro. Mas é assim que eu to aprendendo a viver.

Obrigada. Obrigada, Berlin, pelo um pão e pelo “não-boa noite”. Obrigada por vocês estarem no Brasil e ainda pensarem com carinho em mim.


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5 Comentários »

  1. È Ju.
    Algumas pessoas me dizem que a vida não é cor de rosa.
    E vão falando isso e tentando colocar essa idéia inútil na ninha cabeça…foi essa uma das razões de que abri mão de ser gestor da minha empresa…eu quero uma vida mais cor de rosa…verde…amarela…vermelha.
    As pessoas que vivem em cidades grandes demais são mais hostis até por uma defesa…não sei do que.
    Na agencia onde trabalho hoje o bom dia tem que ser arrancado das pessoas…mesmo assim insisto…é uma tarefa árdua mas insisto.
    O sorriso não pode sair desse lindo rosto seu.
    Cuidados nós temos de tomar na vida pois como disse existem pessoas que ainda não estão no caminho…coitadas…devem sofrer e fazer sofrer…vão ter que acertar contas por não faserem a diferença.
    É aí que entra o UM…ou UNO…este número não é tão ruim assim…Deus ´UNO…
    quando estamos precisando conversar conosco mesmo ou com Ele nos retiramos como você fez na igreja…aí somos UM.
    Ser um não é ruim…sermos um é a preparação para sermos muito mais.
    Procure as pessoas que podem somar…tome seus cuidados com uma cidade grande…que é normal…se dessassuste (nossa! que palavrão)…aproveite a imensa oportunidade de crescer…pois a vida é feita de escolhas…e cabe a nós escolharmos se queremos ser Munique ou Berlin…(se bem que Berlin, assim como São Paulo também não são sinônimo de coisas ruins…ao contrário). Te amo…te amo…seja FELIZ (eita desafio!)…se cuide…fique com DEUS (esse ainda desconhecido).
    João Luís … (por graça Dele seu pai).

    Comentário por João Luís — janeiro 20, 2010 @ 11:13 am

  2. Relaxa linda… essa coisa passa…
    Só não entendo que se é pra tratar tão mal as pessoas, pq essa gente se candidata a hospedar estudantes estrangeiros. Ninguém obrigou eles a receber as pessoas em casa…

    Mas não esquenta linda… Aqui tem gente que te ama e te quer muito bem…

    Bjos, saudades enorme!!!

    Comentário por Erich — janeiro 20, 2010 @ 1:23 pm

    • às vezes eu acho que eu tô no show do Truman… logo depois de escrever esse post, eles vieram perguntar pra mim e pra Rita o que queríamos no café da manhã e, hoje, tivemos um aumento considerável na quantidade de comida na mesa… vai saber…

      ah, minha Gastgeberin ficou mais simpática também… rs

      Comentário por jooliette — janeiro 21, 2010 @ 8:34 am

  3. É, vai ver são agentes disfarçados… Vão rastrear toda sua vida e da Rita e se aprovadas vcs passarão a fazer parte da cia…rs

    Comentário por Virgínia Ponzilacqua — janeiro 21, 2010 @ 10:31 am

  4. Querida, quase chorei quando li este post. Mas você tem TODA RAZÃO: aqui no Brasil tem gente com muita saudade de você e que te ama muito. =)
    Um beijo bem carinhoso!

    Comentário por JuBatista — janeiro 21, 2010 @ 11:24 am


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